O Rex,

[Fotografia no meu facebook usada para o desafio de #desculpasdenatal no dia do - Amigo - para a vida disse eu]
Morreu na semana que eu estava de férias. Não o vi morrer. Não o vi no seu último dia de vida. Não o vi depois de se esconder na sua casota para desfalecer. Soube pela chamada ("Cá em casa agora seremos menos um") que a minha mãe me fez e doeu imenso aquele choque de não estar ali ao pé dele. Não consigo lembrar-me de quando me despedi dele antes de ir para o aeroporto, mas de certeza que o fiz. Mas não me consigo lembrar por mais que tente. Ele fazia sempre aquela cara de "cachorro abandonado" quando nos via com um mala e eu não me consigo lembrar da última, mas consigo lembrar do descer das escadas e dos olhos dele em mim nos últimos dias. Não sei se por defesa, mas sempre que me lembro dele é com aquele rabo a abanar e aquele ar de atrofiado a querer saltar para o colo.
Estas semanas passei por situações diferentes quase todos os dias. Primeiro foi a falta assim que cheguei a casa de viagem que senti, da festa que ele não me fez. De não ouvir aquele ladrar de contente, dos saltos e cambalhotas, das lambidelas nos pés, das orelhas arrebitadas à espera que lhe passasse a mão no pêlo e da pata no ar para lhe dar a minha mão... Foi aquele primeiro impacto de chegar e encontrar literalmente o vazio. Já sem casota. Já sem as coisas dele por ali. Já sem o cheiro. Tento me lembrar e lá está ele no pensamento aos saltos com o ar atrofiado que eu amava.
Os dias passam e assim que chego a casa, não consigo parar de pensar que ele era o primeiro que eu via. Que ladrava logo se eu demorava a sair do carro, que queria sempre saltar e que ficava ali de olhos postos em mim, orelhas no ar e rabo mexer até que eu entrasse na porta. Às vezes entrava e voltava a vir cá fora só para o picar com o "OH Rex" e ele que já estava deitado no chão imediatamente ficava tal e qual como estava quando entrei pela porta.
Não esqueço.
Ele era a nossa campainha. Antes mesmo de alguém chegar a tocar à campainha já sabíamos que estava ali alguém, ele sempre dava sinal. E o ladrar dele era logo revelador de se tratar de alguém conhecido ou não. Como sinto a falta disto. Porque a atitude dele era peculiar. Ele não ladrava para as pessoas, ele ladrava virado para a porta como se a chamar-nos.
Não esqueço.
Ele era um atrofiado do pior. Nunca ligou a bens materiais, entenda-se que era um cão que não gostava de brincar com nada, só connosco. Podias comprar-lhe o melhor brinquedo, não tinha interesse. Mas se eu me sentasse ao fundo das escadas ele já fazia trinta por uma linha para brincar. Para dar a pata, para pôr as patas no meu colo. para roçar o focinho nas minhas pernas. Para fazer corridas e para dar a volta à casa em segundos e voltar ao mesmo sítio atirando-se para o chão. Chorava a rir com ele tantas vezes. Não gostava de andar de carro, sempre enjoava.
Não esqueço.
Por mil e duas razões lá em casa ainda sobra comida e dizemos "é para o Rex". Olhando todos uns para os outros com aquele olhar de "já não". Ainda nos sentamos nas escadas à espera que ele venha ali brincar. Só que não. A piolha mais nova sempre chega e ainda diz "oh já não há Rexi". Ainda ontem, com a mãe falávamos da falta que sentimos dele. Daquela saudade que não se explica quando alguém desaparece. A minha mãe prontamente volta a repetir o que já disse "Não quero mais cães, uma pessoa apega-se tanto a eles...". E acredito. Apesar de ter dito o mesmo depois da nossa pastora alemã morrer e antes mesmo de o Rex vir morar lá em casa. O Rex morava connosco há muitos anos. O Rex é da família há mais de catorze anos. Não esqueço. Não nos esqueceremos.
"Não quero mais cães!" - sinto-lhe o sentido.
Dizem os entendidos que a melhor homenagem que podemos fazer aos nossos animais quando morrem é adoptar outro. Eu tambem acho que sim. De qualquer maneira esta tua homenagem ao Rex também é muito boa
ResponderEliminarObrigada Magda, sentido e coração!
EliminarAcredito que sim. No entanto não consigo pensar nisso ainda. Antes do Rex, na minha infância quando nasci já existia lá em casa uma pastora alemã. Era a minha melhor amiga. Segurança e companhia. Levava-me à escola e ia buscar-me. Foi o amor lá de casa até falecer de velhice, tinha quase 17 anos ela, eu andava na escola primária. Entretanto já me tinham dado outro pastor que apenas teve connosco uns anos pois mataram-no... a seguir a isso a minha mãe nunca mais quis nenhum cão até aparecer o Rex... que cá ficou que me lembre catorze anos. Agora é o luto. Não consigo, não conseguimos olhar para aquele lugar dele e ver lá outro. Amanhã logo se verá. Ainda é ele que nos faz muita falta.
Não imagino a minha vida sem a minha França...aliás se me dizem morreu o meu cão/gato...desato a chorar....cm agora quando li. Choro "por antecipação"...e espero que me dure mais uns 10 anos.
ResponderEliminarDemorei dias a escrever este texto.
EliminarPorque sempre acabei a chorar.
Depois de o publicar já o vim ler imensas vezes e apetece-me acrescentar sempre mais alguma coisa. Tinha tanto a dizer sobre ele. E sempre com ciscos nos olhos. De saudade. muita.
Goza-a bem. <3