Desafio de escrita dos pássaros #2
» O amor e um estalo «
Rita, de férias na Nazaré, cruzou-se com Clara que não via há uma década. Ambas surpreendidas, deram um caloroso abraço por aquele reencontro depois de perderem contacto durante tanto tempo.
- Pareces-me bem, que sorriso bom e esses miúdos são teus filhos? - perguntou Rita admirada.
- Sim. São o meu tudo na vida.
- São teus filhos e do...
- Não! - respondeu imediatamente Clara sem deixar sequer que a Rita terminasse a pergunta. - Estou feliz. Sou feliz. Encontrei alguém que amo e me ama também. Consegui finalmente perceber o que é Amor.
Rita ficou imensamente feliz com aquelas palavras. Vezes sem conta perguntava-se como estaria Clara que desaparecera do mundo delas sem deixar rasto, depois de episódios que marcaram o fim da adolescência de ambas.
Há cerca de dez anos, num jantar de aniversário, estava o grupo de amigos em frente ao restaurante à espera uns dos outros. E chegou ela, Clara a miúda mais gira do grupo com Pedro, o namorado, também ele giro mas, o playboy da zona. Ela vinha como sempre, gira e produzida com um vestido preto justo evidenciando as suas curvas. Os elogios não se fizeram esperar...
Quando finalmente se preparavam para entrar no restaurante, Pedro deu a mão a Clara, disse que se esquecera de algo em casa para ela lhe fazer companhia até lá, mas que voltavam já. E foram.
Demoraram quase uma hora, até que Clara surge abraçada por Pedro, notoriamente abatida e com os olhos de quem esteve a chorar e para espanto de todos de calças e um top básico.
- Clara que te aconteceu, não me digas que foi o Pedro que te obrigou a vestir calças? - perguntou Rui, num tom de brincadeira, já com umas cervejas a mais e nitidamente no gozo.
- Não, claro que não - sorriu timidamente Clara, ainda agarrada a Pedro. - Era o que faltava! - rematou.
Quando finalmente se encontraram cá fora, Rita apressadamente a questionou se ele lhe tinha batido.
- Não Rita! Foi só uma discussão, mas nem tem nada a ver.
- Tu sabes que podes contar comigo para tudo e eu sei que não me estás a contar a verdade.
- Rita (...) foi só um estalo. E eu sei que foi no calor da discussão. Foi a primeira vez. Eu sei. Ele ama-me. E eu também.
- Será que também te amas, Clara?
Vejam outros textos meus para este desafio aqui.

Todas pensam que não passa do primeiro.
ResponderEliminarIsso está mais que provado. E acredito que, se se falasse ainda mais, muitas admitiriam que ainda no namoro tinha acontecido violência...
EliminarFelizmente que a Clara ultrapassou esse relacionamento abusador! Isto é mais frequente do que as pessoas julgam, muito mais. Tive duas amigas que passaram por situações semelhantes. Também se separaram a tempo.
ResponderEliminarAcho que os rapazes são cada vez mais agressivos, daí a achar que a juventude e o final dela deveria ser mais "vigiado". Às vezes não é só uma briga de namorados. Às vezes é violência gratuita física e psicológica. Feliz de quem se livra a tempo..
Eliminaressa é que é a grande questão: saber se as Claras deste mundo se amam?
ResponderEliminarAcho que as Claras deste mundo ainda se filtram muito no amor pelos outros do que no amor por elas mesmas... e as coisas avançam...
EliminarO primeiro é sempre o pior. Depois torna-se hábito. Um hábito inversamente proporcional ao amor-próprio.
ResponderEliminarTão isso Sarin, tão isso!
EliminarUma pergunta pertinente que muitas mulheres, mais jovens ou mais maduras, deviam fazer a si próprias.
ResponderEliminarMuito bom!
Paramos poucas vezes para o fazer. E acredito que muitas nunca o fizeram.
EliminarHá muitas mulheres que se focam apenas no amor com os outros. E isso tolda-as.
Não as deixam ver o que, na realidade é mais importante.
Verdade! A maior das "amarras" que prende as pessoas vitimas de abuso, não são as condições económicas, o não ter para onde ir, o medo de ficar sozinho, é a falta de amor próprio. Acreditam, ou fazem-nas crer, que não valem nada. E se não valem nada, não adianta nada...
ResponderEliminarAcredito que haja muitos medos. E que num ponto as deixe completamente inseguras. Nesse ponto que todos os medos se encontram. Mas também acredito que o impacto psicológico seja um dos principais focos de não as deixar ver que valem mais. É realmente triste. E cada história, uma história...
EliminarOlá Maria
ResponderEliminarFelizmente a Clara abriu os olhos a tempo.
Beijinhos 🌻🏵️
Felizmente! :)
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