Coisas que aprendi, ao lidar com doenças do foro mental

A saúde mental é um assunto cada vez mais na ordem do dia. Só não sei se isso está a ser positivo e a trazer os frutos que deveria trazer. Isto é, às vezes parece que se fala de saúde mental de uma forma tão  corriqueira que parece-me banalizar-se um assunto muito peculiar, importante e que deveria ter uma maior lucidez e atenção. Empatia. Uma maior ajuda no verdadeiro sentido da palavra. Ajuda pessoal e profissional. Doenças mentais (em todas as suas variantes) ainda são um assunto tabu, preconceituoso, pejorativo e diminutivo à pessoa. Com isto tira-se-lhe o foco na ajuda à pessoa que precisa e ao seio restrito onde está inserida que precisa também de ajuda.



[imagem retirada da internet]


 


- o cérebro de uma pessoa é realmente impressionante, a falha/avaria/mau funcionamento de um componente (células) seu muda efectivamente tudo na tua vida e na de terceiros.


- podes achar que percebes, podes achar que chegas lá, podes achar que já leste tudo e mais alguma coisa, podes achar que aquilo vai ser controlável, mas na verdade, a princípio não vais saber lidar ( e este "a princípio" pode durar anos e nunca chegares a saber lidar)


- o amor só não chega. Ajuda. Mas não chega.


- vais ter dias muito maus. Péssimos. Horríveis. Inimagináveis. Vais ter dias melhores. Nunca vais voltar a ter dias como antes.


- num dia podes ter tudo. Tudo a correr muito bem e no segundo seguinte tudo a correr muito mal.


- vais querer desistir, de ti ou da pessoa.


- ninguém, por mais que tu possas partilhar vai saber com o que lidas. Fica mais perto de imaginar, quem já passou por uma situação semelhante, mas todas as doenças mentais são e manifestam-se de maneira diferente com pontos em comum.


- a nível profissional a ajuda é muito pouca para o estrago que causa, não só na vida do doente em si, mas por vezes, muito mais na vida dos que o rodeiam.


- enquanto se lembrarem de ti, está "tudo bem", no dia em que não se lembrarem, que provavelmente vai acontecer, vai doer ainda mais.


- se achas que já viste tudo nesta vida, vais ter a perfeita noção que não, que todos os dias te consegues surpreender e normalmente pelos motivos menos bons.


- pode demorar anos a manifestar-se mas o "bichinho" já lá está, com isto dizer que, haverá pequenos pormenores que a princípio não se dão a devida importância e que mais tarde te vão fazer pensar "afinal quando foi aquilo, já era um sinal". É, pode ser.


- aprende com isso. Vais revoltar-te. Bater o pé. Chorar, gritar, resmungar e vais chegar aquele ponto de ebulição. É normal e melhora com o tempo. E é esse tempo que te vai demonstrar que não vale a pena. Aquilo é uma doença. E uma doença ninguém escolhe. Muito mais uma doença mental que, não só não escolhes como tira-te todos os dias o poder de escolheres o que quer que seja.


[expresso-me mais sobre a demência e o Alzheimer]


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Comentários


  1. Subscrevo na integra, ainda se fala de forma muito leviana mas sem medidas concretas para realmente tornar a saúde mental algo banal e acessível a todos.

    Há pouco tempo partilhei um pouco do que pensava sobre isso e como foi a minha experiência com a ansiedade, muito mais controlada hoje em dia, mas ainda pouco compreendida por quem nos rodeiam (a menos que também sofram).
    Um bom dia.

    https://adizercoisas.blogs.sapo.pt/a-moda-da-positividade-138398

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  2. Não sei se sabes (ou claro que não sabes) mas há uns anos que trabalho na área da Psicologia e Psiquiatria, e estou diariamente em contacto com essa realidade.
    É aflitivo perceber que, na maior parte das vezes, ninguém entende os sinais como tais. E nem me refiro aos mais subtis, que talvez só um profissional consiga decifrar, mas a todos aqueles que seriam perceptíveis a quem estivesse um pouco mais atento. A questão é que ninguém quer estar atento a essas coisas, porque dói só de pensar nessa hipótese, é preferível pensar que só acontece aos outros. Quando é com os seus, a maioria arranja mil e uma justificações para qualquer coisa fora do "normal". 
    E isto não acontece só com as doenças psiquiátricas, mas também com muitas outras alterações psicologicas e comportamentais. Apesar de, hoje em dia, a procura por ajuda já ser cada vez maior, ainda há muita gente a achar que "andar deprimido" meses e meses a fio é normal ou coisa de gente fraca, ou que ter ataques de pânico e ansiedade é coisa de gente fresca, ou que ter um comportamento agressivo constante é apenas sinónimo de mau feitio e má educação. E muitos mais exemplos podia dar. 
    Ainda há preconceito, ainda há muita resistência a procurar ajuda, ainda há quem ache que a saúde mental não é uma necessidade/prioridade, e exemplo disso são os seguros de saúde que, na grande maioria, não incluem a Psicologia, como se fosse algo supérfluo.
    Não é fácil, nem para quem sofre com as ditas doenças, nem para quem está por perto. Destroem-se vidas. Muitas vezes, literalmente.
    Ainda há um longo caminho a percorrer, não só a nível de ajuda profissional, mas principalmente a nível de mentalidades.

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  3. Leio este texto, penso na minha amiga Alice.
    Está internada, visitei -a algumas vezes, até que a família proibiu a instituição que recebesse visitas.
    Não a vejo há 3 anos.
    E como escreveu, ainda se vê a doença de ânimo leve.
    E não é fácil para ninguém 
    Boa semana.

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  4. Olá Tri.
    É isso mesmo que quero passar na mensagem. Ninguém entende a não ser que passe pelo mesmo ou que lide diariamente com alguém a passar pelo mesmo.
    E infelizmente acho que, é verdade que se fale cada vez mais nisto, mas... acabam por haver mais vozes a falar e a fazer estandartes disto, mas que na prática, não ajudam na luta, não reconhecem no outro, não compreendem a diferença na pratica, na vida de alguém que sofre de qualquer doença mental. A saúde mental ainda é muito discutível. E os olhares são ainda muito pejorativos à pessoa em vez de serem de ajuda e inclusão.
    Que estejas bem e controlada! 

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  5. É muito isso Ana!
    Principalmente mentalidades. E por exemplo na demência ou alzheimer, a pessoa doente muitas vezes não tem noção mas quem cuida sofre muito. Com a falta de noção que a pessoa doente tem mas não tem culpa porque não escolhe e com a falta de noção do outro - daquele dito normal. Daquele que olha de lado, que diz que são maluquinhos da cabeça, daqueles que evitam aproximarem-se. Daqueles que se riem em gozo, mas vão para as redes sociais dizer que é preciso cuidar da saúde mental deste país.
    Somos tristes pessoas de aparências e de falta de empatia. Cada vez mais. Banalizamos as coisas de modo a em vez de lhes darmos mais importância retiramos-lhes o sentido. E caminhamos para um futuro envelhecido e esquecido, onde os mais novos cada vez mais "deitam" os velhos para canto.

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  6. As pessoas internadas com este tipo de doença dviam sempre receber visitas, são lufadas de ar fresco que se lhes leva. No entanto há excepções e já conheci casos de que as visitas provocavam ainda mais ansiedade nos doentes o que não sendo bom é evitável.
    Mas são situações muito tristes. A doença é triste e solitária.
    Um beijinho Maria

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  7. é o primeiro post da autora que leio, que me surpreende deveras. Nem imaginava sequer que reparasse nessas coisas. 
    Pronto.
    Como o alzheimer, p.e., acontece porque acontece,  nao pergunto como trabalhar na prevençao das doenças evitáveis. 

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